Infância Perdida – Angustia de Terror
18/08/2020 18:43 em Psicanálise

 

Na minha trajetória enquanto psicanalista, já atendi muitas crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. Crianças fazem sintoma de toda ordem, em função de terem que lidar com a “angústia de terror” que é a invasão de seus corpos e mentes por adultos abusadores. Adolescentes pensam em suicídio para se livrar da dor, porque depois desse tipo de violência, a esperança diante da vida parece irrecuperável. Não há como mensurar as consequências psicoafetivas na vida dessas crianças e adolescentes. Tenho sido testemunha delas, e sei o quanto adultos de seu entorno, podem ser, de muitas formas, vetores da reincidência da violência sofrida. Inclusive aqueles que deveriam oferecer continência e proteção, também por ocasião da revelação do abuso. Mas o que assisti essa semana, no caso da menina de dez anos, violentada pelo tio, foi “violência coletiva” por parte de “gente perversa”, que fazem de seu fundamentalismo religioso, arma contra diretos humanos. E seguem impunes tentando sabotar a infância da menina, das meninas desse país.  País assolado por um (des)governo também perverso contra a humanidade de seu povo. Infância e adolescência, deveriam ser “prioridade absoluta”. Prioridade que está assegurada no ECA, mas longe de estar garantida num país, onde continua livre, quem comete crimes contra uma menina de dez anos, que grita pedindo socorro para lhes restituírem o lugar de criança.

Cristina Marcondes é psicanalista e escreve mensalmente para o site da radio DOM.

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