Como em um só dia Kandahar, a segunda maior cidade do Afeganistão, voltou a ser do Talibã
19/08/2021 15:35 em Mundo

Na manhã do último dia 11, uma quarta-feira, Noor Mohammad Agha, de aproximadamente 30 anos, observava no cemitério de Kandahar o trabalho dos coveiros que, munidos de picaretas, abriam as tumbas para seus pais. Às vezes ele mesmo ajudava. Seu pai e sua mãe tinham morrido poucos dias antes no povoado próximo onde viviam, no distrito de Qasampol Dand, que de uma hora para outra virou frente de combate na guerra entre o Talibã e o Exército afegão. Agha e sua família fugiram do avanço fundamentalista, levando os cadáveres de seus pais para Kandahar, a segunda maior cidade do Afeganistão, com 600.000 habitantes. Mas a guerra os seguiu. Na verdade, enquanto cavava as tumbas no cemitério, Agha ouvia a artilharia do Talibã ecoando cada vez mais perto.

Até aquela manhã, o dia a dia dessa cidade no sul do país parecia ignorar os confrontos armados. A maioria dos comércios estava aberta, e as pessoas caminhavam pela rua como se nada estivesse acontecendo no outro lado das colinas. E, entretanto, o avanço do Talibã pelo país era muito rápido. Naquela mesma quarta-feira, o Talibã já estava às portas de Ghazni, cidade-chave para acessar Cabul por via terrestre (a apenas 150 quilômetros), e Herat, a terceira maior urbe afegã. As duas cairiam no dia seguinte. O Governo afegão desmoronava.

 

Em Kandahar naquele dia havia combates esporádicos, sobretudo ao sul, mas, depois de um avanço do Talibã o Exército tinha contra-atacado e retomado posições. Vários soldados de um destacamento desta área protestavam porque o Talibã, segundo eles, tinha melhor equipamento e dispunha, entre outras coisas, de aparelhos de visão noturna. Continuavam se queixando quando um policial chegou a toda velocidade no seu carro de patrulha, parou, desceu do carro e de repente começou a metralhar o cadáver de um talibã vestido de azul e atirado no chão. Um dos soldados explicou da seguinte forma o comportamento do policial: “O Talibã atacou nossa posiçã gritando ‘Allahu akbar’ [Deus é grande], nos insultando, nos chamando de invasores estrangeiros, como se não fôssemos muçulmanos”.

FONTE: https://brasil.elpais.com/internacional/2021-08-19/como-em-um-so-dia-kandahar-a-segunda-maior-cidade-do-afeganistao-voltou-a-ser-do-taliba.html

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